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Casal do bando de Lampião sepultados no Cemitério da Saudade

Quem ouve a história de Antônio Inácio da Silva e de Durvalina Gomes de Sá, ex-cangaceiros que fizeram parte do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, não imagina que eles foram sepultados em Belo Horizonte.

No cemitério da Saudade está enterrado um casal muito conhecido no cangaço que participou de um movimento histórico que ocorreu em várias cidades do Nordeste do Brasil. Estamos falando do bando de Lampião, conhecido pelos pobres como os justiceiros do sertão e pelos ricos cangaceiros cruéis.

O Jornal Nossa História Arena já noticiou em uma de suas edições a morte deste casal de cangaceiros que por mais de 60 anos se passaram por José Antônio Souto e Jovina Maria da Conceição e esconderam episódios instigantes sobre o cangaço. A lembrança é pelo fato que o cangaço foi marcante na história do Brasil e que o bando de Lampião é um dos capítulos mais comentados do sertão brasileiro e também pela curiosidade dos cangaceiros terem sido enterrados na nossa região, o que pouca gente sabe.

Antônio entrou para o cangaço quando era apenas um jovem de 20 anos, isso aconteceu quando um dos bandos de Lampião visitou uma das fazendas que ele trabalhava. Virgínio, cunhado de Lampião que comandava o grupo viu no jovem um potencial para ser cangaceiro e o convidou e eles o batizaram de Moreno. Mas, antes de abraçar a vida do cangaço, Antônio que já havia praticado um crime em uma das fazendas que trabalhou, teve que mostrar ao bando de cangaceiros que era mesmo valente e deram uma arma pra ele. O bando estava com um sujeito devidamente amarrado, que os havia denunciado à polícia. Traição no cangaço era sinônimo de morte e por isso Antônio para conseguir mesmo o nome de Moreno teve que atirar no camarada, e ele na maior frieza fez sem piedade.

O seu primeiro homicídio é narrado em todos os seus detalhes por João de Sousa Lima, diretor de publicação e arquivo público do Instituto Histórico e Geográfico de Paulo Afonso, na Bahia, no livro intitulado “Moreno e Durvinha – Sangue, amor e fuga no cangaço”, lançado em 2006.

O historiador e escritor João de Souza Lima, deixa claro para aqueles que interessam pela  história do cangaço que  Moreno foi importante no contexto histórico do sertão nordestino e por ter assumido a Durvinha depois da morte do Virgínio, cunhado de Lampião. Segundo o historiador, Moreno era um ótimo atirador e muito arisco e com o passar do tempo matou dezenas de pessoas e nunca foi ferido. E depois que o cunhado de Lampião morreu, ele assumiu o grupo e ficou com Durvinha com quem teve um romance.

A morte de Lampião em 28 de julho de 1938 foi bem planejada por policiais e aconteceu na Grota de Angico, em Sergipe. O episódio foi um massacre comandado pelo Tenente João Bezerra e no momento da emboscada, Moreno e Durvinha se encontravam em Mata Grande, distante 70 quilômetros do local. Homem de confiança de Lampião, ele cumpria uma missão no comando de um subgrupo de cangaceiros.

Sem Lampião, sem Maria Bonita, e tantos outros homens de extrema valentia, sem essas legendas do cangaço, que ficaram para trás, mortos em combate o mundo do cangaço nada mais representava para Moreno e sua Durvalina.

O cerco policial continuou intenso a procura de mais cangaceiros, alguns foram capturados e outros se entregaram. Antes de fugirem, o casal foi a cidade de Tacaratu ao encontro do menino deixado com o Padre Frederico para uma despedida do filho. O padre assustado e com medo que alguém descobrisse que eles estavam ao redor da sua igreja, deu ao casal uma quantia em dinheiro para que eles fossem embora o mais rápido. Moreno ainda pegou algumas roupas para o casal e levou uma moeda de ouro que tinha guardado e partiram sem saber para onde ir.

O casal perambulou pelo sertão se escondendo até chegar a terras mineiras. Margeando o Rio São Francisco, os dois andaram a pé mais de 1.700 quilômetros durante quatro meses até chegarem à cidade de Augusto de Lima.

Por precaução, Moreno passou a chamar-se José Antônio Souto, e Durvalina tornou-se Jovina Maria. Estabeleceram-se na cidade de Augusto de Lima, e prosperaram vendendo farinha e como proprietários de um bordel.

Antônio e Jovina tiveram seis filhos, o primeiro foi ainda no cangaço, um pouco antes da morte de Lampião, o que foi deixado com o padre. O casal mudou-se para Belo Horizonte no final da década de 1960. Ainda com medo de serem descobertos e mortos, mantiveram o passado em segredo até para os filhos.

A história só foi desvendada, graças à curiosidade e persistência de Neli Maria da Conceição, filha do casal. “Para minha surpresa descobri uma foto de um garotinho que meu pai e minha mãe guardavam que disseram que era meu irmão. Falaram que com a seca do sertão em 1938, tiveram que deixar o menino com um padre em um lugar chamado Tacaratu, cidade natal do meu pai. Não falaram que deixaram por causa de serem cangaceiros.

Curiosa, fiquei ligando procurando sobre o paradeiro do Padre Frederico. Mas, fiquei sabendo que ele havia morrido e ninguém conhecia os meus pais. Quando encontrei alguém que sabia da história do padre ter criado um menino chamado Inacinho, descobri que nunca existiu ninguém naquela cidade com os nomes de José Antônio Souto e Jovina Maria da Conceição. O que descobri foi que o menino que o Padre Frederico tinha criado não era filho das pessoas que falei e sim de uma cangaceira chamada Durvalina, mais conhecida como Durvinha e do cangaceiro Moreno, ambos do bando de Lampião. Levei um susto, meu mundo veio abaixo”, conclui Neli a filha do casal.

O casal confirmou o fato para a filha e a história foi espalhando até chegar aos ouvidos dos historiadores que fizeram dessa descoberta: pesquisas, livros e documentários.

A misteriosa dupla foi apresentada publicamente como Moreno e Durvinha, apelidos recebidos quando participavam do bando de Lampião. A vida do cangaceiro Moreno foi retratada no longa-metragem documentário “Os últimos Cangaceiros”.

Antônio Inácio da Silva morreu aos 100 anos, vítima de insuficiência respiratória em Belo Horizonte. Sua esposa faleceu primeiro no ano de 2008, aos 93 anos de idade.

                                                                                                           FONTE – Revista SENATUS

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